O título mulher

Palavras são poderosas; não é uma opinião, é um fato. Palavras têm um poder tão grande quanto uma tempestade o tem, uma força tão avassaladora quanto a de um terremoto e uma capacidade de moldar o espaço que nem os movimentos das placas tectônicas possuem. Hitler as utilizou para controlar uma nação; Martin Luther King, para libertar um povo. Esses pedacinhos de texto, tão admiráveis e complexos em sua natureza, são pequenas bombas atômicas: não é preciso mais de uma para transformar, por completo, o mundo. Todo esse condão, é claro, apenas se dá por outro fator igualmente — se não mais — poderoso: a ideia. A potência da palavra está intrinsecamente ligada a ideia que a gera e por ela é gerada.

Um perfeito exemplo disso é “mulher” . Palavrinha rotineira e recorrente que, por si só, afeta pouco ou nada. O poder dela é atestado no momento em que se liga corpo e alma, escrita e sentido. Para o homem de 650 d.C, “mulher” é nada ; na melhor das hipóteses, um brinquedo. “Mulher”, então, passa a influenciar seu poder sobre toda uma sociedade, indicando o que o indivíduo mulher deve ser, acima de tudo: nada. Para se ter uma pequena noção e mostra de tamanho influxo, tal ideia — mais que isso, tal norma — foi perpetuada através de séculos, ultrapassando barreiras temporais e geográficas. A ideia é um padrão; a palavra, a ponte até a realidade. Dessa forma, “mulher” foi uma ferramenta poderosa para subjulgar toda uma população e classificar, sem qualquer pompa, o desprezível. A mulher.

A palavra não tem partido, contudo. Não é boa nem má, tampouco possui propaganda política. Palavras são como chuva: ora destrutivas, ora revigorantes— muitas vezes, inclusive, sendo ambos para pessoas diferentes. É o que já afirmei e reitero: a potência é intrínseca à ideia. Se a concepção é negativa ou prejudicial, não há razão para espanto perante a consequência danosa de tal termo. Experimente, porém, substituir as ideias. Troque a noção de inferioridade por vigor. O conceito de objeto, por sensualidade. Acrescente mistério, magia, poder, delicadeza, força, equilíbrio, elevação e elegância. Pronto: tem-se outra “mulher”. Palavra que não designa mais um sexo frágil e submisso, muito pelo contrário. É agora um ser quase mítico, o mais próximo que o humano pode chegar do divino. É poesia presa em corpo, trovão que acaricia a alma, uma força da natureza capaz de destroçar todo o planeta — apenas não o faz por compaixão. Isso, para os poetas e românticos de todos os gêneros, é “mulher”.

Não posso deixar de preferir a segunda ideia. Ainda que um pouco exagerada — mas que tipo de escritora eu seria, afinal, se não adorasse um exagero? — , é a que eleva a um estado de sublimação tanto quem admira “mulher” quanto quem é “mulher”. Simone de Beauvoir afirmou, muito corretamente, certa vez: “ninguém nasce mulher; torna-se mulher”. Mas é claro. Tudo depende da ideia “mulher”. Pouco importa o cromossomo XX nesse momento; válido mesmo é o que se pensa de ser mulher. Como boa egoísta e defensora da estima própria como sou, diria ainda que pouco me importa a ideia em vigor. Conceitos são vários. Flutuam no ar livremente, à espera de dedos espertos que os agarrem e prendam-lhes a palavras das mais variadas. Pois bem; agarro a ideia de deusa mitológica, escultura da natureza, presente celestial (ah, românticos, vejam o que me fizeram!). Talvez por isso a surpresa quando chamam-me “mulher”. Uma coisa tão pequenina, como essa que vejo no espelho, seria digna de tal honra? Teria ombros que sustentem peso de tal nome? Há quem diga que sim. Há quem diga, também, que esses são delírios de uma mente que vaga demais pelos ideais e possíveis significados para trivialidades da vida. Eu, no entanto, digo: palavras são poder. Quando bem empregado e direcionado ao indivíduo, chegam até a lhe conceder tal potencial. Mas isso talvez seja apenas um enlevo particular após ser chamada “mulher”.

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