Incerteza

 Querido amor
escrevo-te sem sequer saber quem és
não por anseio ou saudade
por dentro de mim ter mais poesia que meu peito pode suportar
Tenho palavras presas na garanta
versos escorrem-me do olhar
Deus meu, acuda-me
sabia ou não sabia o sabiá assobiar?

A dúvida é tanta, tanta
que é esse tambor dentro de mim?
tem, por acaso, neurônios a pensar?
tem, por acaso, ambição para sonhar?
tem, por acaso, sensibilidade para chorar?
E eu?
Talvez um dia encontre meu lugar
isso, é claro, se sequer haja algum espaço para mim
se há, seria um ou mais?
nessa terra ou nos confins do espaço?
amanhã ou há um milhão de anos?
Mundo mundo vasto mundo
tão vasto que não cabe em mim
tão vasto que precisa haver espaço meu

Haveria, no entanto, um lugar reservado na grande história?
Quem contaria a minha?
Não sei se há máquina que já não tenha sido inventada
poema que não tenha sido escrito
pintura que não tenha sido desenhada
emoção que não tenha sido sentida e traduzida
sequer sei se isso importa
Mais vale
viver para ser lembrado
viver sem medo de ser esquecido?

Sabia eu de tanta coisa
hoje já não sei mais nada

Sábio é o que assobia ou que sabe que o sabiá sabia assobiar?
Sou só uma menina com ânsias de poeta
não viveu nada
- de quando, sinto ter vivido outros mil anos esquecidos, não passam de delírios -
sabe menos ainda
acho pouco
certeza é mais rara
parece-me que sábio é o que para a ouvir o sabiá
a opinião pode mudar

Penso nos grandes poetas
imortais, lembrados, lidos
pergunto-me se me olham dos Elísios
Gosto de imaginar Bilac criticando meus textos
Bandeira defendendo os versos livres
Cecília e Lispector talvez apenas sorriam, resignadas, observando a velha briga
olhariam para mim com carinho?
enxergariam as meninas que um dia foram?

Só sei que nada sei
nunca fez tanto sentido
Há somente pequena exceção na regra
se me consagrarei poetisa
se serei lembrada
se encontrarei meu lugar
se haverá algum propósito
a resposta só terei daqui a 80 anos ou mais
Minha única certeza é essa explosão caótica no peito
acompanha-me desde que sou capaz de pensar
fogo que provoca vontade de grito e choro
descarrego-os em versos que não sou capaz de declamar.

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