Traiu ou não traiu?

     Um de meus livros nacionais favoritos é Dom Casmurro, de Machado de Assis. Caso você ainda não o tenha lido - e eu coloco ainda pois é um livro que todo mundo deveria ler - ou não se lembre muito bem, a história é narrada por Bentinho, o Dom Casmurro. Ele conta a história de sua vida, com foco especial em Capitu, sua vizinha, amiga e amor da sua vida. A história vai desde sua infância até sua velhice, e o narrador constrói a narrativa do seu ponto de vista, influenciando o ponto de vista do leitor também. A suposta traição de Capitu, por exemplo: para Bentinho, é óbvio que a moça o traiu com Escobar - seu melhor amigo, no caso -, não há dúvidas. O protagonista e narrador, no entanto, não é uma pessoa completamente confiável; você pode, claro, concordar com ele, mas nunca há a certeza completa dos fatos. Machado não nos mostra uma visão imparcial da história nem a visão de Capitu, nos deixando a eterna dúvida: afinal de contas, ela traiu ou não traiu?
     Há algum tempo, rolando o feed pelo Instagram, vi uma tirinha da série Sofia e Otto, de Pedro Leite. Nela, a personagem Sofia perguntava-se quem definiu o sexo dos objetos - por que "a caneta", e não "o caneta"? -, e, indo um pouco além, eu me perguntei: quem definiu a História? Reformulando a pergunta, quem nos contou a História? Teria sido um narrador (ou vários) imparcial, com o único objetivo de transmitir os fatos nu e crus, ou um narrador tão imparcial quanto Bentinho? Peguemos a história africana por exemplo, ou quem sabe a asiática, ou até a oceânica - uau, esses continentes existem! -, e eu desafio a qualquer um aqui a dizer o nome do primeiro presidente do Congo, de cabeça. Capital do Butão, então. Quem sabe, o dia da independência da Austrália? "Mas Lívia, eu não sei nem os do Brasil, você espera que eu saiba de países do outro canto do planeta?!". Justo. No entanto, sabemos que o primeiro presidente dos Estados Unidos foi George Washington, nome também da capital estadunidense, e sempre vemos bandeirinhas brancas, azuis e vermelhas no dia 4 de julho. Não me entenda mal, eu não faço questão de saber todos os fatos históricos de todas as nações do planeta - bastam as datas brasileiras -, mas é estranho que saibamos tanto da história de certos países e nem nos demos conta sobre a existência de outros.
     Eu lhe pergunto, por quê? Simples: o narrador que nos contou a história não foi tão imparcial assim. Pode ser que você ache meu discurso muito conspiracional, mas lhe convido a pensar comigo. Historicamente falando, os grandes sempre pisaram na cabeça dos pequenos - não estou falando sobre áreas, veja bem, mas nações "desenvolvidas" e "subdesenvolvidas" -, e não seria tão difícil imaginar que esses grandes tenham um dedo na forma como nos contaram a história. As razões podem ser políticas, econômicas, sociais, ideológicas; mil e um motivos para manter o controle que ninguém que está no topo gostaria de perder. Por que contar uma história em que você assuma o papel de vilão? Tragamos essa ideia para o Brasil, por exemplo. A maioria de nós aprendeu que os portugueses foram os fundadores da pátria; Princesa Isabel, defensora e libertadora dos escravos; os bandeirantes, bravos desbravadores de terras inexploradas, que ajudaram nosso país a tomar a forma que tem hoje. Não que esses episódios não tenham ocorrido, mas é muito mais interessante enfeitar os fatos para ignorarmos detalhes não tão bonitos. Afinal, para que dizer que as terras foram invadidas quando se pode dizer "descobrimento do Brasil"? Não, não seria interessante contar que a Lei Áurea só foi escrita e assinada por pura e espontânea pressão da Inglaterra - com interesses puramente capitalistas, nenhuma preocupação real com os negros escravizados - sobre a monarquia brasileira. E claro, não há razão para usar o termo "genocídio indígena" quando os algozes de mais de 70% dessa população foram também os que acharam ouro e metais preciosos no interior do país. Pegaria mal.
     Não me parece tão surpreendente que o narrador da História a contasse de seu próprio ponto de vista, maquiando fatos para que fosse ele o mais beneficiado. Bentinho fez isso; o que impede qualquer outro de fazer? Basta perguntar a dois ex-namorados a respeito de um término: dependendo de para quem se pergunta, tem-se duas histórias - com frequência, completamente distintas -, e em cada uma há uma vítima e um vilão diferentes. E de fato, não importam os fatos; fatalmente, o contador da história sempre é ou o benfeitor ou o injustiçado. Considerando-se, então, que todos os contadores da história da humanidade são personagens da mesma, não existe vista imparcial, pelo menos não por completo. De um ponto de vista um tanto quanto poético, isso faz de todos nós Bentinhos e Capitus. Todos nós contamos e compramos a história - de todos ou a nossa própria - que julgamos correta, que não nos afeta e nem nos condena, mas apontamos o dedo para todas as traições cometidas pelos olhos de cigana alheios, quer existam provas ou não. Seja você Bentinho ou Capitu, nunca há narrador imparcial. Cabe a nós, nesse romance ambíguo, escolher se acreditamos ou não na história - ou História - que nos é contada. Ao fim, há sempre a pergunta, a dúvida que não cala na alma de nenhum ser humano: afinal, traiu ou não traiu?

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