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Mostrando postagens de agosto, 2020

Dor de dente

 Ninguém gosta de dor de dente. Não é uma dor como as outras — dor de cabeça, dor muscular, dor no estômago, dor de bater com o mindinho no pé da mesa — ; é muito pior. Ainda que não seja inteirada na área da saúde, arrisco dizer que a dor de dente é tão dolorida por mexer com nossa sensibilidade. Ficamos sensíveis, e até o menor movimento da língua nos causa arrepios de dor. Não basta esfregar o local dolorido, assoprar ou deixar passar com algum tempo: quando dói o dente, dói pra valer. Quem é sensível sofre nesse mundo. Não falo apenas de sensibilidade física, como a da dor de dente, mas de sensibilidade como um todo: ser sensível à vida, aos problemas do mundo, às dores emocionais alheias. A vida é dura para todos, mas se torna ainda mais complicada quando se sente não só a sua dor, mas a dor do outro. Dos outros. Quem é sensível é capaz de perder o sono, preocupado com a integridade de quem lhe é próximo ou não. Quem é sensível pode passar horas chorando, sentindo na pele as m...

Ovelhas extraviadas

Pai nosso que estais no Céu santificado seja Teu nome Humildemente aconselho-Te, Santo Deus Não venha a nós o Teu Reino a visão é triste demais Não é feita a Tua vontade aqui na Terra assim como é nos Céus Aqui hoje rogo, ó Pai, não por pão mas por compaixão Dissestes a nós que fôssemos como crianças mas deturpamos Teus ensinamentos violamos os pequeninos transformamos as crianças em nós Perdoa-nos, ó Pai, não só por nossas dívidas mas por nossa falta de amor Perdoa-nos, Santo Deus, tenha misericórdia de nós pois não apenas não perdoamos nossos devedores julgamos culpados aqueles que Tu, Santíssimo chamaste para perto por sua inocência Caímos na tentação, amado Pai Distorcemos Tua santíssima palavra O Senhor transformou a água em vinho transformamos Teu amor em ódio O Mal, que outrora clamamos para que nos livraste, ó Pai - rasgo minhas vestes, e sei que também rasgarias Tua formosa túnica -, ao ver que hoje nós somos esse Mal Quem dera este fosse Teu Reino Quem dera, ó Pai, os que hoj...

Soneto amarelo

Preste atenção, meu bem nem tudo na vida é dor Até mesmo do estrume do gado nasce a mais bela flor Ouça com atenção, carinho viver não é agonia Olhe as gotas de chuva na janela veja se não te parecem poesia Como pode dizer-me que não há solução se após cada madrugada o Sol ainda se abre no horizonte? Veja bem, meu amor, a vida é canção Somos notas sempre mudando de oitava a música só é completa se o fim for em ninguém sabe onde . . . Confira a arte da poesia e outros poemas em:  https://www.instagram.com/eratodapoesia/

ERROR: seu acesso à cultura foi negado.

O assunto desse texto seria outro. Queria escrever sobre temas mais poéticos, subjetivos, gostosos de se ler e que promovessem uma reflexão mais saborosa. Entretanto, a proposta do atual ministro da Economia, Paulo Guedes, forçou-me a focar minha atenção nisso. Talvez você já tenha se deparado com alguma reportagem sobre o tema em suas redes sociais, ou então alguma postagem com a hashtag #DefendaOLivro, e saiba do que estou falando. Para o caso de não saber, aqui vai um breve resumo: o citado ministro propôs ao Senado uma reforma tributária na qual sugere, entre outras coisas, a cobrança de impostos sobre livros. Essa proposta eliminaria a isenção de impostos garantida pelo art. 150 da Constituição ao mercado literário, e taxaria o livro em 12%. Termos difíceis à parte, fato é que Guedes ignora dois grandes problemas que surgem com sua ideia: o pouco acesso que consumidores menos favorecidos já têm a esse produto será ainda mais dificultado, e pequenas editoras — responsáveis por lan...

vaga o lume

Brilha apaga brilha apaga brilha apaga seguia seu rumo nos ares piruetando por entre as folhas das árvores Brilha apaga constância não fazia parte de seu vocabulário não é que não tentasse apenas não tinha controle sobre a lâmpada acoplada Brilha apaga já ouvira que deveria lutar 'veja a lua, a força de seu brilho! Por que nela não se inspirar?' Brilha apaga os flashes lhe cansavam cada apagão lhe desgastava era culpa sua sempre piscar (?) Brilha apaga voava ali, só e sem rumo escuridão de pano de fundo torcia para nenhum predador ver sua luz torcia para nenhum dos seus ignorar seu brilho Brilha apaga brilha apaga até que não brilhou mais. ... Poema inspirado em uma conversa da autora com seu melhor amigo em um dia triste. Ela está bem agora.

Traiu ou não traiu?

     Um de meus livros nacionais favoritos é Dom Casmurro , de Machado de Assis. Caso você ainda não o tenha lido - e eu coloco ainda pois é um livro que todo mundo deveria ler - ou não se lembre muito bem, a história é narrada por Bentinho, o Dom Casmurro. Ele conta a história de sua vida, com foco especial em Capitu, sua vizinha, amiga e amor da sua vida. A história vai desde sua infância até sua velhice, e o narrador constrói a narrativa do seu ponto de vista, influenciando o ponto de vista do leitor também. A suposta traição de Capitu, por exemplo: para Bentinho, é óbvio que a moça o traiu com Escobar - seu melhor amigo, no caso -, não há dúvidas. O protagonista e narrador, no entanto, não é uma pessoa completamente confiável; você pode, claro, concordar com ele, mas nunca há a certeza completa dos fatos. Machado não nos mostra uma visão imparcial da história nem a visão de Capitu, nos deixando a eterna dúvida: afinal de contas, ela traiu ou não traiu?     ...