Dor de dente

 Ninguém gosta de dor de dente. Não é uma dor como as outras — dor de cabeça, dor muscular, dor no estômago, dor de bater com o mindinho no pé da mesa — ; é muito pior. Ainda que não seja inteirada na área da saúde, arrisco dizer que a dor de dente é tão dolorida por mexer com nossa sensibilidade. Ficamos sensíveis, e até o menor movimento da língua nos causa arrepios de dor. Não basta esfregar o local dolorido, assoprar ou deixar passar com algum tempo: quando dói o dente, dói pra valer.

Quem é sensível sofre nesse mundo. Não falo apenas de sensibilidade física, como a da dor de dente, mas de sensibilidade como um todo: ser sensível à vida, aos problemas do mundo, às dores emocionais alheias. A vida é dura para todos, mas se torna ainda mais complicada quando se sente não só a sua dor, mas a dor do outro. Dos outros. Quem é sensível é capaz de perder o sono, preocupado com a integridade de quem lhe é próximo ou não. Quem é sensível pode passar horas chorando, sentindo na pele as mais terríveis injustiças cometidas e sofridas por pessoas que nem conhecem. Quem é sensível, se não cuidar, arrisca-se a entrar em um estado de grande depressão, vendo a maldade consumir o mundo à sua volta. Imagine a dor de dente de centenas de pessoas acumuladas em um único indivíduo. Isso é ser sensível.

Não é de todo ruim, no entanto. Ser sensível faz com que as pessoas confiem em você, justamente pelo fato de que você sabe pelo que estão passando, consegue se colocar em seu lugar. Não é sobre ter todas as respostas, mas ser capaz de sentir o que o outro sente e lhe oferecer apoio para enfrentar o que precisa, ainda que você mesmo não saiba o que fazer. Ser sensível também pode significar que, embora você não consiga saber com precisão como o outro se sente, consegue reconhecer e respeitar a sua dor. Normalmente, as pessoas sensíveis são as que chamamos de “conselheiros”. São amigos para quem se corre quando algo te aflige, para quem se desabafa, mesmo que eles não saibam aconselhar de fato. Podem não ser as pessoas mais sábias, podem não ser sequer capazes de colocar a própria vida nos eixos, mas são os que melhor compreendem. Acima de tudo, os que melhor se colocam em seu lugar.

Sensibilidade não é ser alguém perfeito, vejam bem. Também não significa ser, em 100% das vezes, alguém totalmente compreensivo ou carinhoso. Ser sensível tem muito mais a ver com empatia, e assumir isso não é arrogância ou se vangloriar. Assumir a sensibilidade e aceitá-la como uma parte de si é um fardo, muitas vezes. Eu não brincava ou exagerava sobre chorar ou perder o sono por desconhecidos, nem por se abalar com tanta maldade no mundo. Na verdade, assumir sua própria sensibilidade pode se tornar uma tarefa pesarosa, uma vez que em diversos momentos nos sentimos só, nos perguntando se mais ninguém consegue enxergar as mazelas ao redor. Outra coisa que dói muito é, mesmo tendo vontade de assumir para si a dor de todas as outras pessoas do planeta, não ser capaz de fazer isso. Ver-se parado diante de tanta ruindade, com as mãos atadas, incapaz de solucionar os problemas do mundo.

Não foram raras as vezes em que me senti inútil por não poder fazer nada diante de uma injustiça. Tenho a — carinhosamente apelidada por mim — Síndrome de Mãezona, que me faz querer carregar todos em meu colo, pôr todos os que amo e por quem tenho compaixão debaixo das minhas pequenas asas. Ainda assim, reconheço que, felizmente, não posso fazer isso. Percebo isso olhando para minhas duas irmãs mais novas: há uma parte de mim que quer protegê-las de todo o mal da vida, mas a outra sabe que, fazendo isso, lhes tiro o direito de aprender a se defenderem sozinhas. Isso às vezes me faz pensar que sou inútil, claro, mas por outro lado me mostra a importância de estar aqui. Posso não ter as respostas, mas posso ser colo, ombro e ouvidos. Posso não estar sempre disponível para ajudar ou defender, mas posso fazer os curativos nas feridas alheias, ou pelo menos tentar. Posso não ser capaz de mudar o mundo, ser uma super heroína que vai salvar a humanidade, mas posso fazer outros — mais capazes, mais fortes, mais resistentes — verem toda a podridão, e talvez inspirar neles a vontade de fazer algo a respeito. Não me chamaria de guia, longe disso, mas alguém que, por ser tão sensível às dores afora, pode comover outras pessoas, fazê-las ver o mundo por meus olhos, e convencê-las de que ainda pode haver esperança, se nos unirmos e fizermos algo a respeito.

Pode ser que eu acredite nisso tudo para me dar esperança, também. Para me convencer de que tenho utilidade, algum propósito. Ainda que seja só isso, fato é que ser alguém mais sensível que o normal pode ser bom de vez em quando. A vida tem muita, muita dor, mas também há coisas lindas. Quem sente três vezes mais tristeza com uma injustiça, também sente três vezes mais alegria com uma vitória. Quem é sensível pode, ainda, utilizar a própria sensibilidade como material para se expressar — como a autora que vos fala — ou até como combustível para seguir com a própria vida. Seja como for, assim como muitos outros atributos que existem, sensibilidade é algo que tem seu preço, mas também suas vantagens. Se você não é tão sensível, não se entristeça: está livre de sentir muita coisa de uma vez só, o que pode ser até fatal. Se você é, lhe estendo a mão e desejo toda a força que puder. Não é fácil carregar esse peso e essa impotência, mas você não está só, e fico feliz de também não estar. Sei que esse dente dói, mas você não é o único a sentir a dor e — aqui deposito minhas esperanças — que quer fazer algo a respeito. A humanidade é podre e sempre será, mas realmente acredito que, enquanto houver pessoas que se importam e não se conformam, nos restará salvação.


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