Eu sou linda.

Semana passada fiz dois posts em meu perfil no Facebook relacionados a autoestima. O primeiro, ápice do amor próprio, foi uma foto que publiquei de mim mesma, com a legenda “não é querendo ser convencida, mas como eu sou linda”. Não teria nada demais nisso — apenas meu ego um pouco inflado — se eu não lesse algumas respostas que me fizeram pensar. Além dos comuns comentários de pessoas elogiando minha foto — não entenda como desprezo; eu adoro ser elogiada — , houve um em especial que me chamou a atenção, justamente por ir contra a maré de enaltecimento. Afinal, quem esperaria depois de tantos elogios encontrar um “cada uma” respondendo à sua foto?

Depois de alguns segundos levemente atônita — ainda mais pelo fato de não conhecer o autor do comentário — e mais alguns outros me divertindo com aquilo, pensei em como, de fato, minha foto e a legenda mereciam uma resposta assim. Apesar de até o presente momento não ter certeza se o autor estava ou não tirando uma com a minha cara — o que não importa muito, na verdade — , seu “cada uma” fez com que eu pensasse em como autoestima elevada é uma coisa estranha. Não em sua essência, como se o conceito de gostar de si mesmo fosse algo quase sobrenatural. É estranha no sentido de incomum. Inesperada. Normalmente as legendas de selfies, quando não são frases prontas de músicas ou poetas, são variáveis de “não repara no cabelo”, “até que ficou decente”, “saí com uma cara estranha mas tudo bem”. Tendo isso em mente, a possível surpresa e óbvia ironia de meu amigo comentarista é plausível: “que menina é essa que posta uma foto de si mesma e se enaltece assim, sem mais nem menos?”.

 O segundo post que fiz, relacionado ao assunto, foi o compartilhamento de um tweet cuja autora declarava passar seus surtos de baixa autoestima fechada em casa e apenas consigo mesma, pois para o mundo ela se afirma como “belíssima, inteligente, impecável e ponto”. Me identifiquei com o método, afinal, todos nós temos nossos momentos de autodepreciação e particularmente não gosto de expor os meus para outros. Tão melhor apenas exibir-se como um pavão! Talvez, por isso, uma amiga tenha estranhado tal publicação. “Lívia, com baixa autoestima? A mesma que há poucas horas publicou uma foto exaltando a si mesma? Poupe-me!”. Realmente soa contraditório no início. Porém, apesar de meu amor próprio ser de fato algo considerável, reitero minhas palavras: todos nós temos nossos surtos de autodepreciação. Até Rodrigo Hilbert, o homem mil e uma utilidades, certamente os tem. Sucede que, atores faz-tudo ou não, esses surtos não passam de lapsos de memória, pequenos ou longos períodos em que esquecemos a verdade sobre nós: cada um é perfeito a seu próprio modo.

 “Muito fácil dizer isso sendo uma loirinha de olhos verdes”. Quem disse que se tratam de aparências? Reconhecer seu próprio valor como ser humano vai muito além de achar-se bonito. Naturalmente, não há nada errado em olhar-se no espelho e gostar do que vê, mas isso é supérfluo; autoestima é muito mais ligada ao modo como olhamos para dentro de nós e identificamos nossos talentos e qualidades. Admitir para si mesmo que é alguém confiável, decente, gentil; admirar seus próprios feitos, sem desprezá-los ao compará-los com de outro alguém; aplaudir seu gosto para roupas ou músicas ou filmes ou qualquer outra coisa: isso é exercer a autoestima. É amar cada detalhe de seu ser sem buscar referências de fora, sem exigir a perfeição, sem medo de ser rejeitado pelo que faz ou pelo que é. Não é algo fácil em 100% das vezes, e com certeza a falsa noção do que significa amor próprio e o estranhamento com que quase sempre o recebem não colabora. Inclusive, eis algo que, em sua essência, é estranho: estranhar amor próprio. Oras, eu gosto de mim; por que a surpresa?

Voltaire, ao afirmar que “o orgulho dos pequenos consiste em falar sempre de si próprios; o dos grandes em nunca falar de si”, pode ter sido levado a sério demais por nós. Realmente não é fácil conviver com alguém que só sabe falar de si, mas não deveríamos nos preocupar tanto com isso a ponto de nunca falarmos de nós mesmos. O segredo é equilibrar, sem ser 8 ou 80. Saber discorrer sobre política, futebol, cultura, o que for, mas sem ignorar a eventual vontadezinha de se promover para os outros. Às vezes a gente se ilude com essa falsa noção de que o correto é olhar para si com olhos reprovadores, com a ideia de que assim, somos humildes e — nas palavras de Voltaire — grandes. Bobagem. Reconhecer talentos, pontos fortes, qualidades, sem negá-los em uma tentativa de passar-se por modesto, é saudável. Falar disso, então, é prazeroso. Certamente haverá quem estranhe, condene e olhe para você com a ironia estampada no rosto. Haverá, no entanto, quem admire também; talvez, até quem se inspire e se espelhe. Ao menos, é nisso que gosto de pensar sempre que minha confiança está lá em cima para afirmar: como eu sou demais.

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