Hipocrisia Amarela

Mal entramos no mês de setembro e já muito se falou sobre o movimento Setembro Amarelo. Caso você não saiba, o movimento surgiu em 2014, por uma parceria entre a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), com o intuito de conscientizar as pessoas a respeito da prevenção ao suicídio. O mês de setembro foi escolhido pelo fato de que, no dia 10 desse mês, é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas é importante ressaltar que a campanha ocorre durante todo o ano. São muitas as ações realizadas em nome desse importante movimento, e é interessante que — assim que terminarem de ler esse texto, é claro — todos procurem saber mais a respeito e o que podem fazer para apoiá-lo, aqui. Apesar de citar a campanha, entretanto, não é exatamente sobre ela que escrevo hoje. É sobre o que muitas das pessoas do meu Facebook compartilharam, sobre um sentimento que percebo ser geral em relação ao mês de setembro: a hipocrisia do ser humano, em especial nas redes sociais. 

Assim como todo movimento que aborda assuntos delicados, o Setembro Amarelo tem muita repercussão na Internet. Basta navegar um pouco para encontrar alguma postagem sobre suicídio, depressão, distúrbios psicológicos, entre outros. A grande questão, principal reclamação de muitos e o ponto no qual quero chegar, é: só se encontram posts assim em setembro. Vez ou outra pode-se achar alguém falando sobre o assunto em fevereiro, por exemplo, mas parece que a Internet inteira aguarda até que setembro chegue para, finalmente, dizer “depressão é real, vamos ser legais com as pessoas”. Não que esse tipo de postagem, com essa declaração, seja, por si só, ruim. Problemático é quando a suposta empatia só é real durante um mês, ou, ainda, em palavras escritas em uma tela. 

Pior que hipocrisia, no entanto, é a descrença que ela gera sobre o movimento. Você não daria crédito a uma igreja cujo líder espiritual prega sobre amor e, no dia-a-dia, é desrespeitoso e trata mal aqueles que diz amar — qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. Do mesmo modo, torna-se difícil acreditar em um movimento de prevenção ao suicídio quando se sabe que aqueles que o divulgam sequer se dispõem, verdadeiramente, a ajudar o colega que sofre de depressão ou ansiedade ou qualquer outro distúrbio. Quando aqueles que o divulgam têm empatia seletiva, compadecendo-se de uns e atirando pedras em outros. Assim, a campanha perde a força e menos pessoas procuram participar e divulgar, uma vez que têm receio de ser mais um hipócrita ou então por simplesmente não acreditarem mais na eficiência dela. Com isso, nascem dois grandes problemas: a banalização de distúrbios psicológicos e a morte de pessoas que poderia ter sido evitada, caso o assunto fosse tratado com mais seriedade.

Existem duas coisas que, apesar de poderem ser consideradas praticamente opostas, são fatores que desacreditam o Setembro Amarelo. Uma, é a negação de distúrbios psicológicos, muito difundida por meio de frases como “depressão é falta de Deus” ou “ansiedade é frescura”; dois grandes clássicos. Outra, é a naturalização e glamuorização dos mesmos, e arrisco dizer que esta é ainda pior que a primeira. Afinal, a crença de que depressão e afins não existem é ultrapassada, e a medicina já provou — mais de uma vez — que é baboseira. A última, no entanto, tem ganhado força. De repente, pessoas que nunca foram diagnosticadas com nenhum distúrbio mental ou tiveram algum episódio ou crise preocupante, autodeclaram-se depressivas, ansiosas, bipolares, portadoras de TOC, etc. Tornou-se legal sofrer de algum problema psicológico; para alguns, até mesmo flertar com a morte é algo belo. E aí temos a banalização: por que prevenir suicídio se é tão comum e trivial? Já não é preocupante ouvir que o vizinho sofre de depressão, ninguém mais se impressiona se o colega de trabalho deixa implícito que vai tirar a própria vida. Todo mundo diz isso mesmo. 

Então, quando alguém de fato comete suicídio, vem o choque. Foi o que ocorreu recentemente, no dia 31 de agosto no Mississipi, EUA. Um homem chamado Ronnie McNutt, de 33 anos, tirou sua própria vida em frente a uma camêra, enquanto transmitia as imagens ao vivo em uma live no Facebook. 


Um pequeno aviso antes de prosseguir com o texto. Tomem cuidado se, ao navegar por alguma rede social, encontrarem um vídeo com um homem barbado sentado em frente a uma mesa. Pessoas de mau caráter divulgaram o momento da morte, às vezes, “encondendo” por trás de um vídeo aparentemente inocente. Também não pesquisem imagens ou o vídeo em si. São cenas fortes (não vi o vídeo, mas não é difícil imaginar), que podem ser muito perturbadoras e inclusive perigosas para pessoas mais sensíveis. Dito isso, continuemos. 


Chega a ser irônico que uma tragédia desse tipo tenha ocorrido às vésperas do mês amarelo. Nada de bom ou construtivo pode vir de um suicídio, mas a morte de Ronnie é algo que nos faz refletir sobre o que podemos fazer para que histórias como a dele não se repitam. É perigoso brincar de psicólogo e dizer que vai ser o confidente de alguém com depressão — ambas as pessoas podem sair feridas no processo — , mas existem coisas que qualquer um pode fazer. Uma delas é ser atento. Ronnie foi descrito como um homem atencioso, comprometido e confiável, membro ativo de sua igreja e amado por muitos; não é difícil imaginá-lo com um sorriso em seu rosto. Assim como ele, a maioria dos suicidas não era o estereótipo da depressão: pessoas isoladas, constantemente tristes e com a cabeça sempre baixa. Na realidade, muitos procuram mostrar-se alegres na maior parte do tempo, por medo ou vergonha de admitir sua condição. Ninguém é de ferro, porém, e sempre existem sinais — ás vezes, muito sutis — de que essa pessoa precisa de ajuda. Para que esses sinais possam ser detectados, entretanto, é importante não apenas que paremos de banalizar distúrbios psicológicos e suicídio, mas também busquemos informações — confiáveis! — sobre o que fazer para ajudar as pessoas ao nosso redor.

O Setembro Amarelo é um movimento muito bonito e necessário, uma vez que a taxa de mortes por suicídio tem crescido no Brasil e é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, em todo o mundo. É nosso dever colaborar, mesmo que seja apenas não manchando sua imagem com nossa hipocrisia. É muito fácil e bonito compartilhar publicações de incentivo à vida e prevenção ao suicídio em setembro, quando todos o fazem, mas se essas postagens não forem acompanhadas de atitudes e luta real, de nada adianta. Se não formos capazes de nos dispor para alcançar e ajudar pessoas próximas a nós que pensam em tirar a própria vida, como esperar fazer algo com palavras vazias em uma rede social? A vida é uma dádiva, que precisa ser incentivada. A questão é até onde queremos nos esforçar para lembrar o outro disso.


Página oficial do movimento Setembro Amarelo: https://www.setembroamarelo.com/
10 dicas do que fazer para ajudar alguém com depressão: https://www.fundacaodorina.org.br/blog/setembro-amarelo-dicas-depressao/
Página oficial do Centro de Valorização da Vida (CVV): https://www.cvv.org.br/


O que você acha sobre esse assunto? Concorda com o que escrevi? Discorda de tudo? Deixe aqui nos comentários a sua opinião, terei muito prazer em lê-la!
Não se esqueça também de compartilhar o texto nas suas redes sociais. Até uma próxima!

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