Carência nossa de cada dia

Nunca me considerei uma pessoa muito dependente. Desde pequena, sempre fui muito “eu por mim mesma”, fosse nas amizades da escola ou nas viagens que fazia sem meus pais. Aprendi cedo a gostar de minha própria companhia, e sei que posso sobreviver — e ficar bem — estando só. Eu seria mentirosa, porém, se dissesse que nunca senti carência. Qualquer um que o dissesse mentiria. Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca sentiu aquele aperto no fundo do peito ao ver um casal praticamente perfeito, fosse em filmes, livros ou vida real. Solteiro, namorando ou casado, qualquer um já passou por isso em algum momento. Durante a quarentena, então, nem se fale. Já disse que nunca fui muito dependente de ninguém, mas ai de meu pobre coração há algumas semanas, assistindo a filminhos melosos da Netflix e sem ter o mínimo contato com praticamente nenhum ser vivo de fora de casa. Como foi duro aceitar o fato de ser solteira! 

E o que fazer nessas horas? Há alguns meses, era possível sair com amigos para distrair, passear, conhecer gente nova. Agora, enfurnados em casa — ou pelo menos os poucos trouxas que como eu continuam respeitando o isolamento social — , essas opções já não são mais possíveis. O jeito é inventar hábitos novos e desfrutar da própria companhia, ainda que a esta altura do campeonato isso já esteja enjoativo. Olhando pelo lado positivo, porém, essa carência de quarentena faz a gente notar como é importante ser criativo e gostar de si mesmo. Criativo para não marinar no mais completo ócio de seu lar, mofar como um vegetal na cama, se tornar um com o sofá. Gostar de si mesmo, porque, oras: você é a companhia que te resta quando não se tem mais ninguém por perto. Além do mais, de gente chata e insuportável sempre se pode afastar; duro é quando você mesmo é essa pessoa. Não dá para fugir.

Outra coisa que se nota com a carência e com o prazer que se acha estando só, é que ser solteiro tem vantagens que pessoas em um relacionamento sério não têm. Não digo a vantagem de ficar com quem quiser ou ainda estar livre de DRs — embora essas também sejam vantagens, combinemos. A questão é que, estando longe da pessoa amada, dificilmente a carência passa; essa praguinha do coração só vai embora ao rever seu amor. Se você não tem um amor para chamar de seu, no entanto, hora ou outra o bichinho se entedia, nota que não vale a pena apertar o tambor do peito alheio e sai em busca de uma próxima vítima. Ser solteiro significa que no Dia dos Namorados ninguém se importou em lhe presentar, mas também significa que você está mais acostumado com a solidão, o que facilita durante os ataques da carência. Afinal, o que é uma vontadezinha de chamego para quem passou toda uma vida sem namorar uma vivalma que seja? Não digo que vontade nunca houve; concretização do desejo, porém, é uma outra história.

O ponto é que, seja lá qual for seu estado civil ou seu nível de respeito pelo isolamento social, hora ou outra a carência te pega. Às vezes, de mansinho, infiltrando-se no peito como raízes de uma planta que aperta o coração; outras, em um ataque rápido e fatal, como um bote de serpente. Não há o que fazer, como animais sociais que somos. Por mais desapegado ou intolerante que seja o indivíduo, nenhum de nós pode viver completamente bem sozinho, não há humano que suporte por muito tempo o fardo da eterna solidão. Apesar disso, há sim momentos em que é inevitável estar só, seja por causa de um vírus que se espalha pelo ar ou pelo fato de não estar em um relacionamento sério com alguém. Se a carência ataca nessas horas, não adianta chorar, espernear, gritar “infeeernooo!” à la Carminha da novela Avenida Brasil; ou você a enfrenta sozinho, munido apenas do desfrute que se tem pela própria companhia, ou sucumbe com ela. A primeira opção é sempre preferível, mas não há juiz no mundo que condene quem acabe na segunda. Quem nunca, afinal.

Seja como for, apesar da inevitabilidade de se sentir completamente só e carecer de carinho em alguns momentos, a carência uma hora vai embora. Cedo ou tarde, nos vemos livres dela. E o que fazer nesses, curtos ou longos, momentos de paz? Nos preparar para a próxima investida, aprendendo a amar a companhia da única pessoa que temos certeza de que estará lá. Nem sempre é fácil achar bons programas para se fazer sozinho, tampouco encontrar prazer em estar só. O que posso dizer é que impossível não é, e que o cotidiano é bem menos monótono quando há graça na própria companhia. Amigos sempre são bem-vindos e, sem eles, a vida não tem cor; nenhum deles pode, porém, substituir o calor do amor próprio, ainda mais quando não há jeito de estar acompanhado. Um conselho de amiga para quem, como eu, sofre de carência eventual: se curte. Fica mais divertido viver e mais simples aguentar a solidão. Até lá, relaxe; tem mais gente nesse barco do que o leitor imagina. Solução, por enquanto, não há, então sigamos remando esse bote, comendo doces e vendo filminhos e sériezinhas melosas para apaziguar esse aperto no peito que a carência nos dá.

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