O Sorriso

Já conheceu alguém com um sorriso tão branco que chega a ser estranho? Eu já, muitos anos atrás. E sei que jamais esquecerei aquele sorriso - mesmo que queira.
Eu tinha apenas 9 anos na época; um circo novo acabara de chegar na cidade. A divulgação foi maravilhosa: trupes de palhaços brincando com as crianças na rua, homens coloridos fazendo malabarismo com tochas ardentes, mulheres lindas sobre pernas de pau enormes e músicos tocando melodias alegres à frente de tudo isso. Como qualquer outra criança, não pude resistir àquela saborosa e eufórica explosão de cores, e logo convenci meus pais a me levarem ao espetáculo.
No grande dia, minha animação já havia chego à níveis supremos; não conseguia pensar em outra coisa além da hora em que o circo ganhasse vida. Portanto, assim que as músicas começaram a tocar ao longe anunciando que o espetáculo já iria começar, saí correndo de casa na esperança de conseguir um bom lugar, arrastando meus pais comigo. Ao chegarmos ao local, quase desmaiei. A tenda colorida era enorme, amarrada por inúmeras cordas e cheia de balões. Aquilo era demais para uma criança como eu.
Após alguns minutos que me pareceram horas, meus pais finalmente compraram os ingressos e a pipoca, e logo entramos no circo de fato. Passamos por um corredor com luzes pisca-pisca e chegamos à uma área aberta, com várias arquibancadas na extensão. O lugar estava lotado de pessoas, em sua maioria crianças. Um cheiro de pipoca predominava no ar, juntamente com dezenas de vozes eufóricas e estridentes; era eletrizante. Como quase todos os lugares estavam ocupados, nos restou apenas sentar na ponta da arquibancada, cuja visão não era tão boa, mas era melhor do que nada. Me sentei na beirada com meus pais ao lado, e quase não conseguia respirar de tanta emoção.
Enquanto esperávamos pela grande apresentação, vi um homem magro passar ao meu lado, escondido pelas sombras que a tenda formava. Como não consegui vê-lo direito, estreitei os olhos e fiquei o encarando, tentando enxergar quem seria aquele homem misterioso. O estranho deve ter percebido meu olhar sobre ele, pois virou na minha direção e pude apenas ver seu sorriso branco para mim. "Espero que goste do show, criança." disse ele, e então se virou e continuou seu caminho, seja para lá onde fosse. Continuei observando as costas do homem, depois seu pés, e por fim o espaço escuro por onde havia ido. Algo na voz dele havia me parecido estranha, e até mesmo um pouco sinistra. "Está tudo bem, meu amor?" perguntou minha mãe, entre meu pai e eu. "Sim.", respondi com um tanto de incerteza, "Está tudo bem.". "Que bom." declarou ela sorrindo, do jeito que apenas ela sabia fazer; "Aposto que as apresentações serão incríveis.". Sorri de volta e as músicas foram parando gradativamente, até que cessaram por completo. "Senhoras e senhores!" soou uma voz pelo lugar, fazendo meu coração pular de excitação. "Bem vindos ao maior espetáculo da Terra! Preparem-se, a diversão está prestes a começar!".
As cortinas do local se abriram e vários palhaços coloridos saltitaram para fora, ao som de músicas alegres e divertidas. Qualquer medo que eu tivesse foi rapidamente esquecido, dando lugar à empolgação que havia me levado até lá. Eu não ia deixar uma coisa boba estragar minha diversão, havia decidido. Nada poderia dar errado.
Durante vários minutos, me diverti muito. Era hilário ver as gracinhas dos palhaços, e incrível ver as acrobacias das bailarinas. Foi especialmente chocante o truque de cortar uma dama ao meio, que fiquei tentando entender por algum tempo. "Eles usam um fundo falso." disse meu pai, do outro lado de minha mãe. "Essas não são as pernas verdadeiras da mulher, as de verdade estão escondidas na primeira caixa.". "Querido!" protestou minha mãe. "Não estrague a imaginação da criança!". "O que foi?" disse ele dando de ombros. "É verdade.". Minha mãe suspirou e balançou a cabeça, negando. Coitada, queria tanto me fazer acreditar em mágica.
Enquanto meus pais discutiam, percebi um movimento muito rápido ao meu lado. Virei a cabeça, mas não consegui captar nada. Dei de ombros, pensando que devia ter sido apenas um cachorro. "Agora," soou a voz do início do espetáculo, "preparem-se para ficarem surpresos, senhoras e senhores. Vejam... O atirador de facas!"
As cortinas se abriram novamente e de lá saiu um homem musculoso sem camisa, apenas com um calção listrado e com diversas facas na mão. Ele fez uma silenciosa reverência e jogou uma, duas, três facas no ar, e começou a fazer malabarismo com elas, com uma agilidade que impressionava desde os mais jovens aos mais velhos. Ele dançava com as lâminas, e seu tenro bigode parecia acompanhá-lo naquela dança, balançando para cima e para baixo. Ele continuou com os truques por mais algum tempo, e quando finalmente parou, foi inundado de palmas e assobios, aos quais agradeceu com profundas reverências.
E então aconteceu. Ele sorriu.
Era o mesmo sorriso do homem misterioso.
Minha mente tentou processar aquele sorriso, sem sucesso. Era possível duas pessoas terem o mesmo sorriso, completamente idêntico? Eu nem considerava a hipótese de ser o mesmo homem; o estranho era magro e atarracado, o atirador alto e musculoso. Não era possível.
"Agora, senhoras e senhores, vejam o nosso atirador de facas acertar todos os seus alvos." Não era a mesma voz de antes. Até a entonação era diferente; parecia maliciosa. O atirador se virou para o público e exibiu uma das lâminas, fazendo seu brilho pálido me cegar momentaneamente. Mesmo de longe, pude ver que seu corte era afiadíssimo. "Prepare-se, atirador." Disse a voz, ainda com a entonação estranha. O homem obedeceu e se posicionou, não virado para um alvo ao seu lado, mas em direção ao público. "Atire!"
Foi tudo muito rápido. Antes que alguém pudesse fazer qualquer movimento, ele lançou sua faca. A lâmina girou e girou, até atingir seu alvo. A cabeça de um garoto.
Por alguns segundos, tudo pareceu rodar em câmera lenta. A expressão de surpresa do menino, presa para sempre em sua face por uma faca em sua testa. O sangue esguichando de seu ferimento mortal, manchando o rosto apavorado de seus pais. 
Depois, o pânico. Em algum ponto do lugar, alguém berrou e foi seguido por várias vozes, que corriam desesperadas pelo lugar para fugir, enquanto o assassino - sem tirar o sorriso de seu rosto - mirava em mais pessoas desesperadas. Uma senhora que tentava passar pela multidão com seu filho. Um homem que tentava socorrer uma criança pisoteada pelas pessoas. Minha mãe.
Jamais esquecerei sua expressão de horror ao ver a faca presa em seu peito, o sangue esguichando de seu ferimento em direção ao meu rosto, o olhar em direção à mim e a meu pai, como um último adeus. Seu último suspiro. 
Antes que eu pudesse sequer chorar, meu pai me pegou no colo e saiu correndo, comigo em seus braços. Era atordoante demais para mim, ver minha mãe morta de tal forma. Mas, estranhamente, tive um momento de lucidez: percebi que as pessoas não conseguiam sair do circo. As entradas pareciam trancadas, e a tenda parecia colada ao chão. Alguns tentavam abrir buracos no pano, sem sucesso. Estávamos presos.
O espetáculo de terror não acabara até aí. O atirador continuava no palco, mirando e acertando mais pessoas, na cabeça, no pescoço, no peito. As facas pareciam não acabar. Meu pai, em seu desespero, foi atingido por uma delas, e por pouco não fui junto. O sangue brotou lento, mas constante. Permaneci ao seu lado, sem conseguir me mover, apenas olhando o cabo da lâmina que o acertara no rosto. Não consegui desviar os olhos. 
Então berros e buzinas cortaram o ar, chamando minha atenção. Os palhaços - os engraçados, doces palhaços - se juntavam à carnificina, acertando os sobreviventes com facões e machados. Todos tinham aquele sorriso branco. Por um milagre, consegui me levantar e correr até um canto escuro da tenda, aquele exato em que vi o estranho homem magricela, o primeiro portador do sorriso. Meu coração acelerado não permitia que minha mente processasse tudo aquilo que se passava, e quase não percebi o fogo consumindo a tenda ao meu redor. Os gritos continuavam a cortar o ar, mas em intensidade muito menor que no começo. Não havia tanta gente para gritar.
Tábuas começaram a cair, e o cheiro de fumaça que entrava por minhas narinas me tonteava. Sem conseguir respirar, caí no chão, sem forças. Era meu fim, eu tinha plena certeza. Iria ver meus pais de novo.
Mas não morri. Após adormecer, acordei em um hospital, com a triste notícia do falecimento dos meus pais. Segundo os médicos, o circo tinha pegado fogo graças à um truque de malabarismo ardente, e eu tinha sido um dos poucos sobreviventes sortudos. Tentei negar, contar a verdade. Mas não acreditaram em mim. Afinal, quem confiaria em uma criança de 9 anos? Meses se passaram, e continuei na internação. Cada vez que contava minha versão da história, desacreditavam mais, e diziam que eu era um caso de trauma e amnésia - talvez loucura, vai saber. Mas eu tinha certeza. Eu jamais poderia esquecer aquilo.
Muito tempo se passou, e me sugeriram que trabalhasse com circo, para superar meu trauma. Foi duro no começo, mas me apaixonei. A criança que adorava o circo não morreu dentro de mim, e trabalhar com isso faz com que me sinta nas nuvens. Sorrio todos os dias, de pura felicidade. Um sorriso verdadeiro, alegre, mágico, branco como uma pérola.

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Definitivamente, terror não é meu gênero, nem para filmes, leitura ou escrita. Escrevi esse conto há alguns anos para tentar me desafiar e sair da minha zona de conforto, e deu no que deu. Honestamente, não gosto tanto do final dele, mas espero que a leitura tenha sido no mínimo interessante. - Lívia

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