Cinderela envenenada

     Cindy entrou correndo em seu quarto, com lágrimas furiosas escorrendo por seu rosto. Estava cansada daquilo, daquelas pessoas horríveis com quem tinha de viver. Por que, de todas as mulheres, seu pai casara-se justamente com aquela megera? Por que ela tinha que ter duas filhas tão vis quanto ela? E por que raios seu pai tinha que se juntar à mãe de Cindy, debaixo da terra fria e escura? Como se já não fossem más o bastante antes de ele morrer, a madrasta e as meias-irmãs da Cindy pareciam piorar a forma como a tratavam dia após dia. Não tinham um pingo de compaixão pela moça: tratavam-na mal e a obrigavam a ser praticamente uma serva.
     Isso tudo, é claro, sem contar o que fizeram naquela noite, saindo elegantes e arrumadas para um jantar com um velho amigo de seu pai e a proibindo de ir junto. Cindy podia até imaginar sua madrasta desculpando-se, dizendo que a jovem não quisera ir por pura rebeldia. Não falaria que a haviam trancado na casa, nem diria que suas queridas filhas rasgaram as roupas - já puídas - de seu corpo para a humilhar. Não comentaria que Cindy cortava seus próprios pulsos naquele momento para não sentir a dor em seu peito, e com certeza não diria o que falou para a moça. Não ousaria repetir as palavras que despejara sobre a jovem, escorrendo de sua boca como veneno de uma serpente.
     Era isso, veneno. Cindy era envenenada todos os dias, por meio das palavras tóxicas que saíam da boca daquelas três. Todos os dias, era rebaixada, humilhada, desvalorizada - isso quando não a agrediam fisicamente. Ela era constantemente lembrada de que não era querida lá e sempre ouvia, no mínimo, três ou quatro xingamentos ou críticas a cada hora. Não era de surpreender que Cindy tivesse olheiras cada vez mais profundas e o físico mais magro a cada dia. Estava morrendo, envenenada por palavras, olhares e gestos todos os dias, desde que seu pai se fora. E lógico, o discurso cheio de ódio e repulsa que ouvira de sua madrasta naquela noite - que ela não era e jamais seria nada, que ninguém a amava, que seu pai morrera de desgosto por culpa dela - tinha sido a gota d'água.
     Apoiou-se no peitoril da janela, que ficava a uma boa altura do chão. Olhou para o pequeno bosque que cercava o casarão da madrasta e, além dele, a cidade com as outras casas, pequenas mas luminosas. Nelas, moravam pessoas felizes, cercadas por família e amigos que as amavam. Pessoas alegres, livres de veneno - mas não Cindy. Ela já estava morta há muito, sabia disso. As palavras a haviam matado, e nada mais poderia a curar. Nenhum príncipe encantado a resgataria, e fada nenhuma a ajudaria. Então, suspirando e fechando os olhos, permitiu que a gravidade inexorável a puxasse para a terra fria onde seus pais a esperavam de braços abertos - ela tinha certeza - e sem veneno.

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Esse foi o primeiro conto que escrevi. Ele nasceu de uma prova de redação da qual uma das propostas era criar um conto sobre como palavras podem ser veneno, e, modéstia à parte, eu gosto bastante dele. Não é o melhor conto que você vai encontrar, mas considerando que eu tinha 50 minutos e 30 linhas para fazê-lo, eu me orgulho bastante dele.
E apenas fazendo um aparte, o objetivo inicial desse blog era criar textos comentando assuntos atuais e expondo minhas opiniões, mas ele também é um refúgio para mim e para meus textos, seja quais forem. Assim, daqui pra frente ele terá mais que artigos de opinião.
Dizem que assim que algo cai na internet, fica lá eternamente. Sendo assim, esse é um jeito - pequeno - de imortalizar o que eu escrevo, e isso me traz um pouco de conforto.

Comentários

  1. Menina linda parabéns seu texto gostei muito. Este talento tem que ser postado nas redes sociais não pode ficar escondido. Vou te chamar no wathasap. Sucesso Lívia. Deus abençoe suas mãos, seu pensar, o seu agir.

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  2. O seu conto e a maneira como escreve, me fascinaram. Eu não sou tão chegada a ler quanto gostaria, mas aproveitei cada linha do que escreveu. Na minha humilde opinião, escreve maravilhosamente bem.

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  3. Conseguiu unir um clássico do qual todos pelo menos já ouvimos falar com temas atuais que trazem diversas reflexões. Um texto relativamente curto, mas que carrega muito mais profundidade e complexidade do que é possível notar nas linhas. Simplesmente perfeita!♥️

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    1. Muito obrigada! Sua opinião é muito importante pra mim ♥️

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