O problema do agrotóxico, mesmo que alguns esqueçam-se de que é tóxico

     Vivemos em uma era paradoxal: ao passo que temos tecnologia, recursos e capacidade para satisfazer todas as necessidades básicas da humanidade no planeta inteiro, ainda vemos países sofrendo com a miséria e com a fome. O Brasil, mesmo sendo classificado como país emergente - ou seja, em desenvolvimento - não está em uma realidade tão distante: em certas regiões, é comum encontrar homens, mulheres e crianças sofrendo com a escassez de recursos. Frente a essa situação, muitos pensam serem os agrotóxicos os salvadores da humanidade, proporcionando mais alimentos à população; todavia, não é exatamente isso que acontece.
     Os primeiros agrotóxicos foram desenvolvidos durante a Primeira Guerra Mundial, sendo usados amplamente na Segunda como arma química. O primeiro deles, o composto orgânico DDT, foi sintetizado em 1874 por Othomar Zeidler, contudo foi apenas em 1939 que o químico suíço Paul Muller descobriu suas propriedades inseticidas, recebendo o prêmio Nobel de química em 1948 por isso. À época, a Europa pós-guerra passava fome por conta da falta de alimentos e, junto a isso, os vencedores planejavam a expansão de seus negócios a partir das indústrias que mais haviam se desenvolvido durante o conflito, dentre elas a química. Foi nesse cenário que surgiu a Revolução Verde, que visava promover a agricultura e ser capaz de alimentar todos os famintos do mundo - o que obviamente não aconteceu. 
     No Brasil, essa "revolução" chegou em meados dos anos 60, sendo implantada por meio das indústrias de agrotóxicos e do governo brasileiro: apenas receberiam financiamento bancário para a compra de sementes os agricultores que também comprassem adubo e defensivos agrícolas. Essa política gerou uma contaminação ambiental sem precedentes, sem atingir o objetivo inicial de erradicar a fome. Seria esperado, então, que com os anos os governos percebessem o erro e mudassem sua estratégia; todavia, a cada ano os governantes do país aprovam mais e mais registros de produtos ligados a agrotóxicos. Em 2005, foram 91 registros; em 2015, 139; nesse ano (2019), só até maio foram 169 - sendo o maior ritmo de liberação já registrado na história do país - e o governo não parece querer parar por aí.
     Segundo a atual ministra da Agricultura, Tereza Cristina, esses "são produtos 'genéricos', cujas moléculas principais já estão à venda, que vão trazer diminuição de preço, para que os produtores possam ter viabilidade nos seus plantios". O problema, contudo, está em diversos pequenos detalhes que parecem ter sido ignorados: a contaminação do meio ambiente pelo solo - que pode contaminar também rios e lençóis freáticos -, a morte de importantes organismos essenciais ao equilíbrio ecológico - em especial as abelhas - e a alta toxicidade dos produtos, que podem gerar problemas neurológicos, má formação fetal, câncer e diversas outras doenças. E, apesar de se pregar uma melhora na agricultura com o uso de agrotóxicos, a verdade é que eles criam um ciclo negativo: plantas cada vez mais doentes, "pragas" cada vez mais resistentes e solo cada vez mais pobre. Com isso, a necessidade de se usar adubos químicos e agrotóxicos se torna cada vez maior. 
     Uma solução para transformar essa realidade é substituir o agronegócio pela agroecologia, que nada mais é que um sistema de produção sustentável, economicamente viável e socialmente justo. Usando adubos naturais, esse sistema não apenas mantém o solo fértil o ano todo e gera mais empregos, mas também é capaz de alcançar o dobro da produtividade do agronegócio e ainda possui um custo de produção menor que o deste. Para isso, é preciso pressionar o governo por mudanças nas políticas públicas, pelo banimento de agrotóxicos - que já se provaram incapazes de satisfazer a fome e se mostraram muito mais prejudiciais que benéficos - e pela implantação de uma Política Nacional de Agroecologia eficiente. Dessa forma, o Brasil matará dois coelhos em uma só cajadada: alimentar a população e proteger o meio ambiente, para que essa mesma população tenha mais qualidade de vida ao longo dos anos.


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