Antes um coração doado que um a sete palmos abaixo da terra

     A Medicina é uma área da Ciência em constante evolução, que não para de trazer inovações desde que surgiu. Uma de suas maiores descobertas, sem dúvida, é o transplante de órgãos, que têm salvo milhares de vidas todos os anos. O primeiro deles foi realizado em 1933, por um cirurgião ucraniano em um homem para tratar de uma insuficiência renal aguda; desde então, com o crescente avanço da biotecnologia, os transplantes têm se tornado cada vez mais seguros e relativamente fáceis de se realizar. O que não têm sido fácil, no entanto, é mudar a mente de diversas pessoas que não são capazes de enxergar os benefícios da doação de órgãos, e que impedem, muitas vezes, a possibilidade de recuperação de um paciente.
     Ainda não foram descobertas as curas de diversas doenças degenerativas, fazendo com que muitos pacientes em estágios graves, quase terminais, não tenham outra alternativa senão receber órgãos de um doador saudável. Essa solução, no entanto, se vai quando a família de um doador em potencial se recusa a autorizar a doação, tanto por superstições quanto pela falta de diálogo entre os familiares. Segundo a legislação brasileira, em vigor desde de março de 2001, apenas a família pode autorizar ou não a doação de órgãos, independentemente do desejo do doador. Isso, entretanto, é algo que causa muitas mortes que poderiam ter sido evitadas: segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a recusa da família é o principal motivo para a não concretização de doação, representando 44% das causas que levam à isso.
     Esse foi o caso de Tatiane Penhalosa, diagnosticada com miocardiopatia hipertrófica: a moça, de 32 anos de idade, estava na fila de espera por um transplante de coração que nunca chegou, em virtude das várias famílias que negaram a doação. Sua história viralizou na primeira metade deste ano, após sua amiga publicar um texto no Facebook sobre o ocorrido e chamar a atenção de milhares de pessoas sobre o assunto. Tatiane esperava pelo transplante há dois anos, e acreditava que seu novo coração chegaria este ano; isso, contudo, não ocorreu, e a jovem faleceu em abril para a indignação de familiares, amigos e desconhecidos. O caso gerou tanta repercussão que foi criada uma campanha, por meio de um abaixo-assinado, para a criação da "Lei Tatiane", que defende que o ensino e a conscientização sobre a doação de órgãos devem ser implantadas nos currículos escolar e acadêmico brasileiros. 
     Apesar de triste, a história de Tatiane Penhalosa serve como inspiração para todos que acreditam que, por meio da união, a população tem o poder de exigir do governo medidas contra a desinformação, que é causadora de muitas mortes que não precisavam ocorrer. Além disso, promover o diálogo e a discussão do assunto não apenas nas instituições de ensino, mas também nos lares brasileiros, é de fundamental importância, visto que muitas famílias não cedem a autorização por nunca terem conversado a respeito com os doadores em potencial. Dessa forma, mais mortes como essa seriam evitadas, e menos pessoas teriam que sofrer com a morte de um ente querido que poderia estar vivo. Afinal, não é só a medicina que deve evoluir - também o deve o ser humano.

Comentários

  1. Incrível, não sabia da lei da Tatiane, e que discurso bonito, simplesmente adorei ler, há muitas informações muito bem colocadas, e todas com referência, simplesmente incrível, uma atitude honrosa, minha mãe é uma das que deseja doar, eu ainda não sei se gostaria que minha família doasse, bom não há mal algum em salvar uma vida, 'hoje eu, amanhã você'; amei o texto!!

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